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  O despreparo cultural do povo brasileiro
 
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Sempre me interessei em estudar e acompanhar as atividades relacionadas com a organização política no Brasil. Nunca militei em nenhum partido político e sou um auto-didata que percebeu, de longa data, o despreparo cultural do povo brasileiro para desempenhar o seu papel em um regime democrático.

O povo desta nação, pelo que observo, é averso a se organizar para o exercício do poder. Se olharmos as organizações na base da nossa sociedade, vamos verificar que é sempre uma pequena minoria que exerce o poder e toma as decisões. Basta olharmos como funcionam os nossos centros acadêmicos, associações de bairro, clubes, condomínios residenciais. A grande maioria não quer participar e nem tomar decisões Ela simplesmente entrega a uma pequena e ínfima minoria uma delegação para que tome as decisões em seu nome.

Tentei conseguir explicações para este comportamento e constatei tratar-se de uma conseqüência da nossa formação cultural que data de 300 anos atrás. Nossos colonizadores portugueses adotavam a escravatura como base da organização da produção nas colônias e em pouco tempo a população negra se tornou muito superior aos colonos brancos. Havia então o interesse de que não houvesse nenhuma propagação de organização popular com relação ao exercício do poder na sociedade, pois isso era perigoso e desestabilizador.

Após a ocorrência da independência dos americanos da Inglaterra em 1776 e principalmente depois da Revolução Francesa, por volta da década de 1790, as coroas portuguesas e espanholas passaram a proibir a divulgação de livros em suas colônias para evitar a disseminação das novas idéias.

No caso do Brasil, o Império controlava até a comunicação entre as diversas capitanias. A Educação era deixada com a Igreja que participava do esquema de poder do Estado. Dessa forma, houve um cerceamento da evolução cultural política do povo brasileiro.

Na realidade, mesmo depois de fundada a República, com aparência externa de democracia, o poder continuava a ser exercido por uma minoria, no caso, os fazendeiros de café. Mais uma vez, não interessava à essa aristocracia, detentora de todo poder na República, que o povo fosse educado para exercer o poder. Era interessante que tudo permanecesse como estava.

O controle do governo permaneceu sendo exercido por minorias até 1930, quando então apareceu outra minoria para exercer o poder em nome do povo, os militares. De 1945 até hoje tivemos minorias exercendo o poder, sejam grupos de empreiteiras, grupos de bancos, estatais ou mesmo os militares que outra vez ficaram no poder desde 1964 até 1985.

O povo, na sua grande maioria, continuava e continua não participando do processo político, inviabilizando, de uma certa forma, a verdadeira democracia no país.

Precisaríamos de mudanças culturais na sociedade brasileira para alterar este quadro. Essas mudanças são difíceis e demoradas e se tornam mais difíceis ainda quando não se sabe o que se deve mudar e para onde devemos caminhar.

Aproveitei algumas viagens que fiz aos E.U.A., a trabalho, na década de 70, para, por conta própria, pesquisar as origens da democracia americana. Lá, extatamente há 300 anos, enquanto no Brasil a coroa portuguesa fazia de tudo para manter o povo na ignorância do processo político, a religião protestante fazia exatamente o oposto.

Os primeiros povos que imigraram para a colônia inglesa na América, eram protestantes que haviam fugido das perseguições na Europa, por serem contrários ao poder exercido pela nobreza e pela a Igreja.

Na nova terra, os protestantes pregavam, em seus cultos e em suas escolas, que os cidadãos deveriam ser organizar para estabelecer a vontade da maioria, se guiar por ela e nunca permitir que uma minoria exercesse o poder acima do interesse da sociedade. Esse conceito se enraizou profundamente no comportamento do dia a dia do povo americano até hoje.

Numa das vezes que eu estive nos EUA, acompanhei duas ocorrências que dão para mostrar o comportamento político do povo na base da sociedade. Eu relato aqui esses fatos:

1 - BOICOTE DOS CIDADÃOS A UMA LOJA COMERCIAL

Em um bairro na redondeza de Boston um determinado comerciante vinha atendendo mal seus clientes. Eram problemas com a entrega, qualidade de produtos, não cumprimento dos compromissos de garantia, etc.

Numa das reuniões da Associação do Bairro, que nos EUA, em geral, é uma organização poderosa, a população do bairro reclamou e testemunhou tudo que estava acontecendo de errado com o atendimento daquele estabelecimento. Depois dos depoimentos, o presidente colocou em votação a proposição de um boicote à loja pela população do bairro por uma semana, como advertência.

A proposta foi votada e aprovada pela maioria. Já na segunda feira, nas esquinas do quarteirão, onde se situava a loja, foram colocados aposentados, contratados pela Associação, que ficavam com cartazes anunciando o boicote decidido pela Associação do Bairro.

Eu, surpreso com essa medida, andei varias vezes pelo quarteirão e vi que naquela semana, ninguém entrava na loja. A loja ficou as moscas. Soube depois, através de amigos, que na 5ª Feira, o dono da loja foi procurar o presidente da Associação do Bairro, solicitando detalhadamente a lista de tudo que precisaria ser mudado para normalizar o atendimento dos seus clientes.

Eu fiquei maravilhado em ver a forma com que eles resolveram o problema usando o poder da maioria organizada. Note-se que eles não chamaram nenhum político, não foram reclamar às autoridades, não denunciaram à policia e nem usaram os órgãos de Defesa do Consumidor. Apenas se organizaram e exerceram o poder atingindo diretamente o bolso do comerciante.

Comentei este fato com amigos americanos do lugar e eles ainda me esclareceram que caso o comerciante não tomasse atitude nenhuma, a Associação do Bairro colocaria um anúncio no jornal convidando outro comerciante do mesmo ramo a se instalar no bairro. A população do bairro passaria então a comprar da nova loja e o comerciante relapso teria que fechar.

2 – COBRANÇA POPULAR DE POLÍTICOS ELEITOS

Outra vez, eu estava nos EUA na Nova Inglaterra. Era um sábado pela manhã e eu estava vendo um programa na TV Educativa local. Era um auditório grande com muita gente.

Acompanhei as discussões e logo percebi que o assunto era relacionado com a política local de um determinado distrito de Boston.

Na reunião participavam cidadãos, representantes de associações de bairros do distrito, das igrejas, das escolas e outras organizações.

Nos EUA o voto é distrital sendo a cidades divididas em vários distritos. Cada distrito elege o seu representante para o Conselho da cidade (equivalente à Câmara de Vereadores aqui). Seis meses antes, na campanha eleitoral, o mesmo público havia se reunido com o principal candidato do distrito ao conselho e apresentado a ele vários problemas dos bairros e da comunidade. Era solicitado
compromisso do candidato de se empenhar para buscar soluções para os problemas.

Nas listagens das necessidades dos bairros constavam: policiamento, escolas, limpeza pública, organização de eventos, drenagem pluvial e outras demandas.

O representante fôra eleito e a reunião que eu estava vendo, televisionada pela TV Educativa de Boston, era o público do distrito, seis meses depois, cobrando do seu representante as ações que havia tomado no seu trabalho no Conselho.

Apresentaram a ele a mesma lista de problemas apresentada na sua campanha para eleição para lembrá-lo de seus compromissos. O Representante eleito corria a lista e dissertava sobre o histórico de suas ações, levando consigo documentos e ainda apresentando os responsáveis da administração pública, como delegado, secretária do planejamento escolar, que apresentavam ao público suas análises dos problemas, providências tomadas, orçamentos, restrições e cronogramas.

Eu fiquei pessoalmente muito impressionado com aquele tipo de reunião, pois nunca havia ouvido falar de nenhuma cobrança popular e nem prestação de contas desse tipo aos vereadores no Brasil.

Comentei com um amigo americano sobre a reunião e ele me fez uma observação. “Caso esse político não responda adequadamente a esse público, ele já, de antemão, poderia considerar a sua carreira como encerrada”.

Voltei ao Brasil imaginando como estamos longe de um processo político verdadeiramente democrático. E vi, ainda, como vai ser difícil mudar essa realidade. Eu freqüentei curso primário, secundário e universidade e em nenhum estágio senti o interesse do Estado em formar o cidadão brasileiro para formar uma maioria em defesa do interesse coletivo.

Por exemplo; princípios e práticas para fiscalizar os seus representantes e exigir de seus pares na coletividade o cumprimento das leis e não deixar que uma minoria exerça o poder. Exemplos como esse acima que deveriam ser estudados nas escolas, mas não são nem citados.

Parece que as minorias que exercem o poder neste país não se interessam que esses comportamentos e idéias cheguem ao conhecimento do povo, pois elas perderiam poder.

Com isso caimos num círculo vicioso cultural. Não temos bons líderes politicos porque o povo não sabe se organizar politicamente na base para escolher bons representantes e cobrar para que eles exerçam a vontade da maioria. E não temos educação politica na base da população porque não interessa às minorias que mandam no país que o povo se organize politicamente para exercer realmente o poder.

Parece-me que temos que romper com essa barreira e quebrar esse círculo vicioso.

Fica aqui então uma sugestão de matérias jornalísticas relacionadas à investigação, análise de como a democracia é exercida na base da sociedade em outros paises, como EUA, Canadá, Inglaterra, Austrália, Suécia e outros.

Como é a formação do cidadão no ensino básico para que ele seja ativo e responsável coletivamente, forme uma maioria, fiscalize e pressione para a punição daqueles que se desviam do interesse coletivo. Muitos dessas nações aprenderam com as experiências de outros povos. Outras nações pagaram um alto custo pela destruição de suas casas, cidades e vidas, graças à irresponsabilidade de deixar o poder na mão das minorias.

É urgente que aprendamos a exercer o poder pela organização da vontade da maioria. Dessa forma evitaríamos passar pelos mesmos sofrimentos que outros povos passaram, pois, eles podem ser traumáticos e deixar sequelas para as gerações futuras.

Como não podemos contar com o Estado, esta é uma missão, onde o trabalho jornalístico de pesquisa, investigação, análise e divulgação, são fundamentais, para que o tema possa penetrar na literatura, nos teatros e nas novelas.

Precisamos do apoio e empenho da imprensa jornalística, mesmo porque ela será a mais prejudicada caso a nossa fraca democracia seja ainda mais disvirtuada como vem sendo em outros países da América Latina.

Nós, cidadãos, não podemos contar com mudanças nas altas escalas de governo enquanto não reavaliarmos importância do nosso comportamento na base da sociedade.

Osmar Baptista Silva

 
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