Não fui sequer peladeiro, nem tampouco boleiro de praia. O futebol entrou na minha vida pelos portões do estádio da Vila Belmiro, acomodando-me, melhor dizendo, espremendo-me nas arquibancadas para ter o desfrute de ver aquele que foi, como jogador e hoje é como personagem o maior protagonista do futebol mundial, Pelé. Nesta primeira matéria, comentário, artigo ou qualquer coisa que valha, reservo-me a falar sobre a evolução do futebol que denominamos paixão nacional, para o prolatado “profissionalismo”.
A corrida pela maestria esportiva, hoje, encontra-se impulsionada pela denominada Lei Pelé que regula um mercado ferozmente competitivo, que pela ideologia de seu criador, em cuja essência, visava acabar com o “passe” sob o argumento de que estes atletas eram reféns dos clubes.
A partir da Lei Pelé, instaurada há dez anos, o futebol brasileiro passou a ser dominado por empresários. A frase é um mantra repetido por cartolas.
Atualmente, estes empresários especializaram-se apenas em gerenciar as carreiras dos jogadores deixando de lado a “pessoa” do jogador, exemplo: cuida-se da carreira do “R’s” (os dois Ronaldos e Robinho, relegando-se à própria sorte o destino de suas vidas pessoais, que reservo-me a não comentar).
Ao se tratar o atleta como “produto”, a ser comercializado pelo marketing esportivo, há, por um lado, um jogador assujeitado ao discurso capitalista e pasmem, sem qualquer poder de decisão ao rumo que possam dar à suas vidas e carreira esportiva, pois agora se vêem reféns dos empresários e investidores. Enfim, se antes os jogadores eram “escravos” dos clubes, acho que só mudou o “senhor da senzala”. Contudo, apesar dos desacertos que existem em nosso futebol, continuamos sendo os melhores do mundo no ranking da FIFA, dentro do universo imensurável do futebol, e nossos craques são os mais procurados pelo rico mercado europeu. Por isso, é que, nos últimos anos, os jogadores eleitos como os melhores do mundo foram brasileiros.
Não há como negar que o futebol brasileiro é o melhor do mundo. A habilidade natural dos jogadores aqui nascidos e seu sucesso em clubes do exterior, deram a fama ao país de produzir atletas “tipo exportação”. Nada mais justo.
Se dentro de uma perspectiva de muitos anos, de uma linha que vai desde as categorias menores até ao futebol profissional, existe uma conduta – fechar contrato – como mostram os periódicos esportivos, já é tempo de atribuir ao craque uma alma, de considerá-lo enquanto sujeito, pulsional, cheio de conflitos recalcados e escondidos no inconsciente. Um atleta que pode e deve dizer por que quer jogar de uma forma não de outra, em um clube ou outro, sem que o mesmo fique reduzido ao sistema ou encoberto pelos desejos de outrem. Em suma, que um dia sejam grandes como “Edson” e não pelas alcunhas.
Nessa ótica, já antevia Nelson Rodrigues, em sua obra À sombra das chuteiras imortais: “De fato, o futebol brasileiro tem de tudo, menos seu psicanalista. Cuida-se da integridade das canelas, mas ninguém se lembra de preservar a saúde interior, o delicadíssimo equilíbrio emocional do jogador”.
É preciso, enfim, uma vivência mais humana do futebol em que o jogador, mais que objeto, produto ou mercadoria, seja ele o centro da atividade, o sujeito; para que ele mesmo possa entrar em campo ao seu favor.
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